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quinta-feira, 21 de julho de 2011

Recorde de baixa do dólar reativa no governo artilharia contra o real forte


O simbolismo da cotação do real voltando aos níveis praticados no período inicial do regime de câmbio flutuante visivelmente perturbou a área econômica do governo. Quando o real bateu, no primeiro dia de julho, a menor cotação desde janeiro de 1999 – mês em que o Brasil abandonou o câmbio fixo – o sinal foi de alerta.

A semana passada foi marcada por declarações e ameaças, que culminaram com a retomada efetiva, na última sexta-feira, da artilharia contra a valorização da moeda nacional, que estaria prejudicando a competitividade da indústria.

Em um ano de grande ativismo do governo no câmbio, persiste a dúvida sobre a necessidade e a eficácia das iniciativas adotadas. Se, por um lado, a área econômica tenta conter uma queda maior do dólar, por outro, ela mesma reconhece que o fortalecimento da economia brasileira nos últimos anos induz o real a um patamar mais elevado.

Influenciam também a valorização, a perspectiva de juros baixos nos Estados Unidos por mais tempo e os preços ainda elevados de commodities, que o Brasil exporta e obtém grande saldo de dólares.

Por isso, os ministros e técnicos do governo têm focado seus discursos e estudos de ações no combate a um suposto excesso de especulação no mercado, especialmente no de futuros, que tem grande importância na formação da taxa cambial. Mas por ser menos sujeito a regulação, esse mercado se transformou no calcanhar de Aquiles do governo na tentativa de barrar a queda do dólar.

Lento e ineficiente. O fato concreto é que o governo é lento e ineficiente para tomar medidas de aumento da produtividade e competitividade dos produtos nacionais, como redução de alguns impostos e investimentos em infraestrutura.

Por isso, acaba sentindo-se impelido a adotar medidas cambiais para tentar proteger os setores econômicos mais afetados pelo problema. Tais iniciativas têm mostrado alguma efetividade no curto prazo, mas como não alteram a tendência estrutural, são constantemente ampliadas e renovadas, como ocorreu nos últimos dias.

Para o sócio da Tendências Consultoria e especialista em câmbio, Nathan Blanche, a valorização do real reflete os fortes fundamentos do País e o governo erra com intervencionismo.

"Um país com economia enfraquecida, como os Estados Unidos, tem moeda desvalorizada. Um país que tem se fortalecido, como o Brasil, tem moeda em alta", diz. Para ele, tentar desvalorizar o câmbio significa proteger ineficientes e prejudicar o combate à inflação e o crescimento.

Blanche avalia que não só as interferências concretas do governo são problemáticas, mas também é ruim a estratégia de ficar ameaçando antes de agir. Tal postura gera antecipação de fluxos – tanto no mercado à vista como no futuro –, o que termina por gerar efeito contrário ao pretendido.

No primeiro trimestre, por exemplo, houve aumento forte de empréstimos externos, pela expectativa de adoção de um Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) maior, que só ocorreu em abril.

Reservas. O diretor da Tendências combate a tese do governo de que a política de compras de dólares para compor as reservas internacionais ainda seja necessária. E também rejeita a ideia de medidas para limitar as atuações no mercado futuro.

Segundo o economista, esse segmento ainda é relativamente pequeno no Brasil e restrições acabariam prejudicando o financiamento de exportadores e desestimularia a busca de proteção (hedge) para as empresas, o que significa, na prática, estimular a especulação. "Quem não faz hedge, especula", diz.

Para o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, o governo está numa "sinuca de bico", na qual, ou combate a valorização do real ou prejudica a liquidez e o funcionamento dos mercados.
Segundo ele, o governo tem possibilidades agressivas de interferência, como induzir a menores apostas na valorização do real feitas no mercado futuro e também taxar toda a entrada de capital externo, independentemente de seu perfil, o que evitaria qualquer possibilidade de dribles no IOF de 6% que incide em alguns capitais.
"Se quer contornar a impossibilidade de se carimbar dinheiro, o governo precisa alcançar tudo", afirmou.


Fonte: O Estadão Online

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