Outro dia fui surpreendido por um telefonema com uma proposta tentadora: uma consultora de uma instituição financeira me oferecendo um crédito em conta corrente, de qualquer banco, pagável em até 60 meses, no valor do limite do cartão de crédito que me fora oferecido (e por mim recusado) meses antes. Seriam R$ 15 mil, a taxas razoáveis de mercado, prontos para inflar o consumo. Como não pretendia gastar nem investir isso, recusei a oferta.
Uso esse caso para começar a explicar (e desmistificar) o tal “milagre” econômico da era Lula, que apresenta aspectos como inflação baixa, desemprego em baixa, consumo interno em alta, etc., etc. Esse “milagre”, para observadores menos comprometidos com o lulismo, tem cinco razões - todas óbvias, mas nem sempre ululantes: crédito consignado aos aposentados e pensionistas do INSS e do serviço público; recuperação lenta e gradual do valor do salário mínimo; ampliação de programas sociais de transferência direta de renda; elevação da oferta de crédito ao consumidor; e redução do preço de produtos de consumo durável, especialmente eletro-eletrônicos.
Vamos a cada um deles: a instituição, através de instrução normativa do Ministério da Previdência Social em 2004, do chamado crédito consignado, teve um enorme impacto no consumo das famílias em geral.
São nada menos que 28 milhões de aposentados e pensionistas (sem contar os do serviço público) que, de um momento para o outro, passaram a ter uma espécie de cheque especial de 30% sobre sua renda normal. E eles foram às compras, consumindo de tudo: alimentos, material de construção, eletrodomésticos, enfim, tudo.
Aliado a isso, os bancos passaram a oferecer, nos últimos anos, cartões de crédito de forma indiscriminada a clientes e não clientes. O que há 15, 20 anos, era privilégio de poucos, ficou ao alcance de qualquer pessoa. Isso teve, também, enorme impacto no consumo, principalmente de bens duráveis, porque o comércio vende de tudo parcelado nos cartões de crédito, sem necessidade de crediário, consultas ou comprovação de renda.
A recuperação lenta e gradual do valor do salário mínimo, nos últimos quinze anos, também foi importante nesse aparente “milagre” econômico do governo petista. Começou no início de 1995, quando o governo FHC fixou o salário mínimo em R$ 100,00, que correspondia a 100 dólares, na época. Nesses 15 anos, este valor triplicou, chegando hoje a 300 dólares, aproximadamente.
Obra de Lula e do PT? Sim, mas também do governo FHC, do Congresso Nacional, que aprova e sempre aumenta a proposta do Executivo e, principalmente, da estabilidade econômica, proporcionada pelo Plano Real a partir de julho de 1994 (que Lula e o PT lutaram contra no Congresso e hoje colhem os frutos).
A expansão dos programas sociais do governo federal, em especial os de transferência direta de renda, como o Bolsa-Família, também tiveram forte impacto no consumo na era Lula, mas não a ponto de promover o ingresso de milhões de pessoas na classe média, como diz a propaganda oficial. Doze milhões de benefícios médios de R$ 80,00, convenhamos, não têm o condão de elevar ninguém a esse patamar, mas podem proporcionar forte impacto no consumo de bens não-duráveis, sobretudo alimentos.
Por fim, e não menos importante, outro fator que impactou fortemente o consumo de bens duráveis no Brasil, especialmente de eletro-eletrônicos, foi a redução dos preços de tais produtos. Concorrência externa, evolução tecnológica – vários são os fatores que fazem com que se pague, hoje, até 60% menos por uma TV de plasma, por exemplo, do que se pagava há quatro anos. Mérito do governo petista ou da era Lula? Não, é a economia de livre mercado produzindo seus frutos, tão combatida pelo petismo. Pena que seus adversários políticos não souberam explicar isso ao eleitorado na última campanha eleitoral.
Todos esses fatores somados produziram o boom econômico da era Lula. O aumento do consumo interno produz mais investimentos, que geram uma maior produção, mais empregos, tributos, etc. Como se vê, a maioria dos fenômenos que produziram esse “milagre” econômico, passaram longe dos gabinetes governamentais. O governo poderia ter ajudado mais, sim, provocando ou criando condições políticas para as reformas trabalhista e tributária, entre outras, que tanto travam o desenvolvimento do País, assim como a nossa precária infra-estrutura, regional e urbana. A propósito, onde mesmo esteve o Lula nesses últimos oito anos? Bem, segundo o noticiário, criando mitos... e bebendo pinga por aí!