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quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Não há para onde correr, diz grande gestora de fundos


Os investidores não vão sair em debandada dos Estados Unidos, vendendo os títulos da dívida americana, porque o país deixou de ter o status máximo de segurança contra calote, a nota de crédito AAA, avalia Mohamed El-Erian, chefe-executivo da Pacific Investment Management Company (Pimco). A razão é simples: eles não têm para onde correr. Os EUA tiveram sua nota rebaixada para AA+ pela Standard & Poors na última sexta-feira, após 70 anos mantendo o rating mais alto.
"Não é provável que isso aconteça de repente, uma vez que você não pode substituir alguma coisa por nada. Então, no lugar de uma fuga dos Treasuries americanos (títulos da dívida dos Estados Unidos), deverá haver uma lenta e gradual diversificação ao longo do tempo", explicou El-Erian, em entrevista por e-mail às correspondentes Luciana Antonello Xavier e Denise Chrispim Marin. A Pimco é uma das maiores gestoras de ativos do mundo, com mais de US$ 1 trilhão sob seu gerenciamento.
Uma vez que outros países avançados estão sendo rebaixados e há muita incerteza na zona do euro, El-Erian explicou que, para os fundos que só podem investir em títulos de países com rating soberano AAA, a saída será "relaxar". "Enquanto eles não puderem diversificar, na margem, seus porfólios, eu acredito que a maioria vai pedir aos seus investidores para relaxarem as diretrizes de investimento e, dessa forma, permitir a continuidade da participação dos títulos do Tesouro dos EUA entre suas opções", afirmou.
O senhor disse em seu artigo no Financial Times que os mercados irão acordar na segunda-feira em uma nova era financeira, uma diferente realidade. Será também uma realidade pior?
Será uma realidade mais incerta e preocupante. Lembre-se de que o sistema financeiro global foi construído e funciona com a presunção de ter um sólido AAA no seu centro, que proporciona uma moeda de reserva para o mundo, um "taxa livre de risco" e mercados mais profundos e líquidos. Não há mais nenhum puro AAA que seja capaz e esteja disposto a substituir os Estados Unidos. De tal maneira que o funcionamento do sistema vai evoluir de um modo gradual e incerto.
Podemos esperar mais tempos turbulentos pela frente com o rebaixamento da nota dos EUA e todas as incertezas que cercam a Europa?
A perda da América do seu AAA não vai ajudar num mundo que já está preocupado, e com razão, com a desaceleração sincronizada do crescimento global, a ampliação da crise soberana e dos bancos na Europa, e a erosão da confiança na habilidade dos gerenciadores de políticas de lidar com seus desafios.
Os investidores correrão para tirar o dinheiro dos EUA? Os Treasuries podem perder seu papel central no sistema financeiro?
Não é provável que isso aconteça de repente uma vez que você não pode substituir alguma coisa por nada. Então, no lugar de uma fuga dos Treasuries americanos, deverá haver uma lenta e gradual diversificação ao longo do tempo.
Onde estão agora os lugares seguros para se investir? A China e o Brasil terão mais destaque na economia global?
Sim, com a perda do AAA da América, vários países serão alvo de maior entar interesse incluindo Austrália, Brasil, Canadá, China, Alemanha e Noruega.
Qual será a opção para os fundos que só podem investir em países com nota AAA?
Enquanto eles não puderem diversificar, na margem, seus porfólios, eu acredito que a maioria vai pedir aos seus investidores para relaxarem as diretrizes de investimento e, dessa forma, permitir a continuidade da participação dos títulos do Tesouro dos EUA entre suas opções.
Temos observado várias críticas quanto à capacidade do Obama de governar, à inabilidade do Congresso em alcançar acordos em momentos difíceis e quanto à credibilidade da S&P. Quem sai menos fotogênico na foto depois da crise da dívida e do rebaixamento da nota de risco de crédito dos EUA?
Ninguém parece bem entre os formuladores de políticas e os políticos americanos. A ação da S&P é um sinal estridente do declínio gradual da economia americana e de sua posição no mundo. De fato, a agência falou explicitamente sobre os pontos fracos tanto dos formuladores de políticas quanto da condução da economia dos EUA.
Recentemente, o senhor afirmou que o principal problema na economia dos EUA é o baixo consumo doméstico. Com o rebaixamento, as taxas de juros para o crédito ao consumidor aos investidores podem aumentar. É possível uma nova recessão no curto prazo?
Os EUA enfrentam o risco de recessão e a alta probabilidade de parar de crescer de repente. Pense em um avião, que precisa desenvolver certa velocidade para ficar no ar. Os EUA precisam de um crescimento mais robusto para superar sua crise do desemprego e a piora dramática dos despejos de pessoas de suas casas e assegurar dados equilibrados em médio prazo.
Um novo acordo entre o Congresso e a Casa Branca sobre o esforço fiscal para os próximos 10 anos seria um meio de fazer a S&P rever a sua decisão? Ou, definitivamente, a credibilidade dos EUA na área fiscal está danificada?
A história sugere que, depois de perder um AAA, não é fácil recuperar essa classificação. Também não ajuda em nada o fato de, no rebaixamento dos EUA, a S&P ter anexado sua perspectiva negativa de mais um rebaixamento, desta vez da atual nota AA+.
Fonte: O Estadão Online
 

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