As recentes crises mundiais evidenciaram uma nova realidade da economia da América Latina: ela passou a ser estável e próspera. As turbulências também serviram para reanimar um velho debate na região sobre o papel do Estado, proposto por intelectuais desenvolvimentistas, também chamados de estruturalistas. Após décadas dominadas por instabilidade financeira, recessão e inflação elevada, os países latino-americanos gozam agora de melhores indicadores. O maior dos percalços está no risco de desindustrialização agravado pela “doença holandesa”, o barateamento de importados movido por grandes lucros com exportação de commodities (produtos básicos com cotação internacional), que valorizam o câmbio via entrada maciça de dólares.
Alguns dos principais nomes do pensamento desenvolvimentista afirmam ao Correio que o Brasil precisa prestar atenção em teses que influenciaram economistas como Celso Furtado (1920-2004), Maria da Conceição Tavares e Luiz Carlos Bresser-Pereira. Edgar Dosman, sociólogo da Universidade de York, no Canadá, avalia que a elevada valorização do real pode até rimar com crescimento econômico a curto prazo, dependendo de vários fatores, como o apetite do comércio internacional e a força do sistema bancário. Mas ela aparece logo depois como grave ameaça, considerando a perda de competitividade da indústria, os custos da infraestrutura e a intensa volatilidade de capitais.
Autor da biografia de Raúl Prebisch (1901-1986), editada no país pela Contraponto e lançada em Brasília na semana passada, Dosman vê como maior desafio para os emergentes hoje gerir efeitos nocivos e estruturais causados por políticas irresponsáveis da Europa e dos Estados Unidos. “Deficits fiscais e comerciais, pressões cambiais e os riscos de deflação e protecionismo dos países ricos se tornam graves problemas políticos e ameaçam o resto do mundo”, sublinha. Ele lembra que Prebisch, estruturalista argentino que construiu a Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), já alertava nos anos 1940 para a importância de um acordo global contra abalos sistêmicos.
O economista, que foi também secretário-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad), sofreu críticas tanto de liberais quanto de marxistas, por defender o papel indutor e regulador do Estado na economia, sem, contudo, inibir as forças do mercado. Segundo Dosman, depois de ser rejeitadas nos últimos 25 anos, as ideias dele se tornaram relevantes. “Confrontados por um mercado global com crises periódicas, países em desenvolvimento precisam de um Estado forte, mas enxuto”, atesta.
Prebisch cunhou o termo Estado inteligente, que controla crises periódicas e usa ferramentas contra quedas do comércio e terremotos financeiros, além de atuar na redução de desigualdades regionais e ajudar na governança global. O canadense cita a Coreia do Sul como nação que seguiu essa cartilha difundida há anos pela Cepal. Outros especialistas veem a China e a Índia também como modelos bem-sucedidos de políticas desenvolvimentistas.
Perigos
Thomas Palley, economista do New American Foundation, centro de estudos com sede em Washington, também vê lições estruturalistas atualizadas. Ele alerta para o risco de a economia da América Latina voltar ao século 19, caso não se defenda das atuais ameaças à indústria, encabeçadas pela valorização cambial.
“O bom momento para o comércio de matérias-primas esconde graves perigos e a tendência atual é reviver a era vitoriana, quando a região era essencialmente exportadora de commodities”, diz. Além do fortalecimento das moedas locais, ele destaca a grande agilidade do mercado de manufaturas no mundo atual como o novo desafio para os principais países latino-americanos. “Trata-se de um momento difícil e extremo da globalização. Enquanto sobem importações de produtos industrializados, a competitividade cai”, comenta.
Sob a ótica do pensamento estruturalista, Palley entende que a reação possível ao processo de decadência industrial está numa aliança tática entre Brasil, Europa e Estados Unidos para fazer frente à China. Apesar disso, ele reconhece que a crescente integração dos mercados brasileiro e chinês tornou a relação bilateral particularmente complexa. Em outras frentes, o governo brasileiro também deveria buscar atrair capital financeiro externo para investimentos produtivos e falar ainda mais grosso nos fóruns econômicos internacionais contra as distorções do câmbio. “Não adianta procurar soluções para só alguns setores quando os preços gerais da economia estão sendo afetados. O Brasil é voz importante no cenário global e deve aproveitar seu prestígio para influir em temas controversos”, resume o ex-chefe da Comissão Econômica EUA-China.
Fonte: Correio Brasiliense
Nenhum comentário:
Postar um comentário