A crise econômica pode modificar, em geral, nossos
hábitos alimentares, introduzindo vários paradoxos em nossa dieta, como comprar
produtos mais caros, comenta para a AFP o sociólogo Jean-Pierre Corbeau. Ante a
austeridade anunciada para os próximos meses, os fenômenos observados desde
2007 podem se ampliar, com exceção, certamente, dos mais pobres.
São as classes média e média alta, "nem sempre as mais atingidas pela
crise inicialmente", as primeiras a modificar seus comportamentos de
compra, e isso vem acontecendo desde 2008, constatou o especialista.
As mudanças coincidem com um entusiasmo pela cozinha, pelo "fazer na
própria casa", seguidas de cursos e do surgimento de mais e mais programas
a respeito na televisão, mas também de discursos sobre a alimentação sadia,
sazonal e orgânica.
Nesses meios, muitos deixam de ir "sistematicamente
todas as semanas a um hipermercado", de sucumbir a tentações infinitas,
para privilegiar a compra necessária junto aos próprios produtores. Segundo
Corbeau, dizem "não aos morangos, em dezembro".
Em relação às sobremesas, principalmente, "adquire-se mais produtos
básicos, com a volta do fazer você mesmo, com exceção da ida à confeitaria no
domingo; mas, em geral, compra-se menos artigos já prontos".
Entre a classe média, mesmo as famílias não atingidas diretamente, há um certo
liame de solidariedade, porque no entorno haverá pessoas fragilizadas pelo desemprego.
Isso as deixa mais prudentes, e uma visão um pouco catastrófica", explica
Corbeau.
Neste contexto, há ainda um outro paradoxo observado durante as crises:
"um alimento quando é muito mais barato, torna-se suspeito", destaca.
De qualquer forma, o consumidor tem necessidade de ser tranquilizado, de saber
de onde provém o produto: o local de fabricação, quem o vende, sua marca, como
é a produção, se é orgânico. Ficam de fora os produtos não identificados, mesmo
se não forem caros. "Isso pode nos poluir, nos envenenar: é a lógica da
saúde", diz Corbeau.
Um dos efeitos secundários da crise é que categorias intermediárias, do ponto
de vista econômico, estão prontas, paradoxalmente, a gastar um pouco mais, de
forma mais pontual, para se nutrir. "Compra-se mais produtos de melhor
qualidade" e este fenômeno começa a contaminar famílias relativamente
modestas, observa o sociólogo.
Se a crise, acelerando a perda de referências, cria novas regras, ela suscita, também, comportamentos hedonistas do tipo "façamos loucuras porque entramos na era do +no future+".
Os que têm rendimentos mais modestos, visam, também, as marcas. Mais pelas
crianças, com a justificativa "ainda podemos fazer assim". Outro
efeito da crise, os restaurantes assistiram à emergência de uma clientela que
tudo divide; grupos de amigos ou colegas que se cotizam para comer bem. "É
uma dinâmica que começa a se tornar mais forte", destaca o sociólogo.
Começam, também, os investimentos na criação de hortas nas próprias casas,
permitindo uma alimentação menos cara, sadia e gostosa.
Fonte: France Presse
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