O consumo das famílias continuou pujante, a despeito
das medidas tomadas pelo governo para frear o ímpeto de compra dos brasileiros.
Enquanto o Produto Interno Bruto (PIB, soma de todas as riquezas criadas do
país) registrou desaceleração, passando de uma alta 1,2% no primeiro trimestre
para uma expansão de 0,8% no segundo, a demanda das famílias seguiu trajetória
oposta e avançou 1,0%, ante os 0,6% do período anterior. Apenas de abril a
junho, elas gastaram R$ 612,5 bilhões.
De acordo com Rebeca Palis, economista do IBGE, “o consumo das famílias puxou fortemente o PIB. Esse desempenho foi baseado no aumento da massa salarial, da ocupação, do rendimento médio dos trabalhadores e do crédito direcionado para pessoas físicas”. Parte dessa demanda foi suprida pela importação de bens duráveis, acrescentou.
Para o economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Carlos
Thadeu de Freitas Gomes, o consumo das famílias continuará sendo uma das
âncoras do crescimento do país, no mínimo até 2012, ou “até onde o mercado de
trabalho e o crédito permitirem”. As chances estão a favor dos trabalhadores.
Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos
(Dieese), cerca de 93% das negociações salariais do primeiro semestre
resultaram em aumentos superiores à inflação medida pelo Índice Nacional de
Preços ao Consumidor (INPC), que teve variação de 3,70% no período. No ano
passado, houve aumento real em 86% dos casos.
Os bons reajustes devem se manter, no segundo semestre, nas negociações de
categorias com grande poder de mobilização, como petroleiros, bancários e
metalúrgicos. Neste ano, os metalúrgicos da Renault conseguiram o maior acordo
já fechado no Brasil, com pagamento de Participação nos Lucros e Resultados
(PLR) de R$ 61,5 mil e 20,19% de aumento real nos salários até 2013. O acordo
vai injetar R$ 343 milhões na economia nos próximos dois anos, segundo o
Dieese.
Com dinheiro no bolso, o cidadão vai continuar comprando. “Nem a crise externa
bateu no crédito. Os setores de serviços e de comércio continuam favoráveis ao
emprego”, assinalou Freitas. Para ele, isso não deve preocupar o governo. “O
que deve ser observado é até onde a crise afetará a atividade econômica”,
disse. Ruy Coutinho, presidente da LatinLink, acrescentou que o consumo é uma
coisa boa, sinal de que o país cresce. “Mas tem uma sintonia fina. Se
exacerbado, aumenta a inflação”, lembrou.
Segundo Coutinho, o perigo é que, com a surpreendente queda da taxa básica de juros, a Selic, “o governo aumentou a octanagem do combustível da inflação”, principalmente depois de ter se comprometido com um aumento de 13,6% no salário mínimo, para 2012, com impacto de R$ 21,5 bilhões nas contas públicas. Ele crê que, nos próximos seis meses, o consumo vai subir em ritmo menor. “O x da questão é que ninguém sabe o que passou pela cabeça dos técnicos do Banco Central.
Aparentemente, houve precipitação. O temor é que, de forma
experimental, o BC reverta mais uma vez o que está fazendo.” Para Miguel
Ribeiro Oliveira, vice-presidente da Associação Nacional de Executivos de
Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), isoladamente, a queda dos
juros básicos de 12,50% para 12% ao ano terá pequeno efeito nas operações de
crédito. A preocupação é que a inflação pode subir e corroer o salário do
trabalhador.
Fonte: Correio Brasiliense
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