O corte inesperado de 0,5 ponto nos juros do governo,
que só uma minoria no mercado antecipava, trouxe prejuízos a empresas de
crédito, bancos, redes varejistas, seguradoras, fundos de pensão e demais
companhias que precisam gerenciar o dinheiro próprio e o dos clientes.
Só a BM&FBovespa, praça que junta quem quer se proteger desse risco com
juros com quem "especula" com a variação de cenários e de taxas, viu
ontem R$ 2,11 bilhões trocarem de mãos.
O dinheiro equivale aos ajustes que os investidores tiveram de levar à Bolsa
para se adaptar ao novo cenário.
Os negócios com contratos de juros de diferentes prazos (outubro de 2011 a
janeiro de 2021) saltaram 61% ontem, levando o volume cujo risco foi
"coberto" de R$ 320,4 bilhões para R$ 517,8 bilhões.
Ontem, a maior parte dos "desavisados" que tiveram de se ajustar ao
novo cenário -46% do total- estava nos contratos com vencimento em outubro, o
de prazo mais curto, que costuma ser mais previsível e demanda pouca proteção.
Para outubro, a previsão dos juros desceu de 12,29% para 11,90%.
"Deve ter tido muito 'sangue' na Bolsa. Esse corte nos juros custou muito
caro para muita gente. Uns poucos ganhadores apostaram contra quase todos.
Precisa ter muita fé para fazer uma aposta dessas", disse o consultor
Milton Wagner, da Wagner Investimentos.
Segundo Marcio Cardoso, diretor da corretora Título, os que mais perderam ontem
foram os bancos e os fundos agressivos, que fazem o papel de
"especulador" ao oferecer hedge [proteção] às empresas, com base nos
estudos de seus economistas.
"Ficou aquela sensação de que o Banco Central não é mais quem dita as
regras, como na época do Henrique Meirelles", disse Cardoso.
Além das perdas pontuais ontem, a mudança nos juros tornou imprevisível a
conduta do BC nos próximos meses. De um dia para o outro, bancos que contavam
com o primeiro corte na taxa de juros só em janeiro passaram a prever que a
taxa do governo caia para 10% ainda neste ano.
Fonte: Folha Online
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