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segunda-feira, 27 de junho de 2011

Brasileiros endividados recorrem a grupos de Devedores Anônimos



Dia após dia, uma legião de brasileiros está vendo a vida familiar se desintegrar por um mesmo motivo: o excesso de endividamento. O problema aflige, principalmente, os quase 40 milhões de consumidores que ingressaram no mercado nos últimos 10 anos sem a mínima informação sobre o crédito. São pessoas que, por um bom tempo, se viram privadas de produtos essenciais. Mas, com a grande oferta de empréstimos e financiamentos, puderam satisfazer todas as necessidades — um ganho e tanto para qualquer sociedade, não fossem os juros tão elevados cobrados no Brasil, que, em média, comem cerca de 25% da renda dos lares do país. Nos casos mais extremos, as despesas com dívidas engolem mais de 30% dos rendimentos dos consumidores.

Dados mais recentes do Banco Central e da Confederação Nacional do Comércio (CNC) indicam que 64% das famílias têm, atualmente, algum tipo de dívida. Do total dos consumidores, 53% devem mais do que ganham, 25% têm contas em atraso e quase 9% admitem que não têm mais condições de pagar nada. Diante desse quadro assustador, os devedores pedem socorro. Com medo de perder o bem mais precioso, a família, e, por tabela, todo o suado patrimônio que construíram por décadas de trabalho, eles estão buscando ajuda de escritórios de advocacia especializados em negociar débitos sobre os quais incidem taxas de juros abusivas.

O drama é tamanho que, com o auxílio de advogados, os que têm dívidas em excesso também começam a recorrer a grupos denominados Devedores Anônimos, nos moldes dos Alcoólicos e dos Narcóticos Anônimos. Objetivo: livrar-se da compulsão por comprar. Oficialmente, existem três desses grupos em São Paulo, três no Rio de Janeiro, dois no Paraná e um no Ceará. No Distrito Federal, tentou-se montar algo semelhante, mas faltam voluntários dispostos a coordenar os trabalhos.

“É sempre muito difícil encontrar pessoas que vistam a camisa dessa causa. A maioria que participa dos encontros quer apenas sair do vermelho ou tentar amenizar os sintomas da doença. Em Brasília, ninguém quer ser coordenador do grupo”, diz um dos líderes do Devedores Anônimos de Londrina (PR), que prefere não se identificar por também ser um comprador compulsivo. “Trata-se de uma doença chamada oneomania. Ela não tem cura. Por isso, é preciso estar sempre alerta e vencer um dia de cada vez”, acrescenta.

Em São Paulo, uma integrante de um desses grupos conta que o excesso de dívidas e o desejo irrefreável por consumir a levaram ao distanciamento da própria família. “Quando passei a frequentar as reuniões, meu único objetivo era pagar as dívidas a fim de reconquistar a confiança em minha casa, já que as relações estavam estremecidas”, conta. “À medida que frequentava as reuniões, muitas fichas caíam. Entre elas, tive a percepção dos muitos padrões de comportamento que me levavam ao endividamento excessivo. Um deles foi a incapacidade de dizer não e de fixar limites. Outro foi o hábito de mentir. Mentia para não sofrer retaliações, não ser discriminada no meu círculo de amigos”, relembra.

Extrema necessidade

Os consumidores são atropelados pelas dívidas quando incorporam no orçamento doméstico os limites do cheque especial e do cartão de crédito, as modalidades de financiamento mais caras do mercado, com juros na casa dos 10% ao mês. Na avaliação dos especialistas, qualquer pessoa só deve recorrer a essas linhas em caso de extrema necessidade. O que se vê, no entanto, é que os brasileiros estão comprometendo o grosso dos salários com gastos supérfluos, compram sem pensar, mesmo que os juros cheguem a 600% ao ano, como os cobrados nos cartões de crédito do Itaú Unibanco.
“Para se livrar das dívidas é necessário ter em mente que é preciso combater suas causas e não seus efeitos. E isso só se faz com educação financeira”, explica Reinaldo Domingos, educador financeiro. Ele ensina que, para se livrar do endividamento, é preciso criar uma estratégia. Podem ajudar medidas como negociar com os credores, economizar para comprar à vista e até usar um instrumento liberado pelo Banco Central denominado portabilidade de crédito, no qual se leva o débito para outro banco a juros mais baixos e prazos mais confortáveis para pagamento.

A economista Ione Amorim, do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, alerta, contudo, para as armadilhas criadas pelo mercado — ou seja, golpes travestidos de soluções para os devedores aflitos. Uma das artimanhas é o parcelamento das compras já divididas. Na prática, as pessoas compram um produto e dividem o valor em seis prestações. Mas quando recebem o boleto ou a fatura em casa, chega junto a proposta de redividir o débito em até 12 vezes. O problema é que as parcelas originais já carregam juros. E, sobre as 12, há casos em que as taxas chegam a 11% ao mês ou mais de 240% ao ano. Quer dizer: são oferecidos juros abusivos sobre juros. Um crime disfarçado de facilidade para os desesperados.

Mentiras e humilhação

Os especialistas consideram a oneomania uma doença obsessivo-compulsiva. Nesse caso, a pessoa tem comportamentos característicos além de comprar em excesso, como, por exemplo, contar objetos sem conseguir parar. A falta de planejamento torna-se patologia quando as dívida levam infelicidade à vida familiar, tiram a concentração no trabalho e acabam com a reputação. Ainda são listados como sintomas o sentimento de humilhação devido ao endividamento e as mentiras para familiares e credores a fim de gastar mais. 


Fonte: Correio Brasiliense

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