O crédito ao consumidor tem ficado cada vez mais caro. Medidas do BC (Banco Central) a fim de desacelerar a economia foram deflagradas em dezembro. O objetivo é frear a alta de preços, que começou a preocupar o mercado após ano de intenso consumo interno.
Contudo, especialistas ouvidos pelo Diário frisam que os mais pobres sofrerão mais em cada frente de ação. Pois, para impedir alta de preços, as ações englobam os financiamentos de médio e longo prazo quando não houver entrada. Então, parcelas maiores que 24 meses serão mais onerosas.
O setor automotivo é o mais prejudicado. O consumidor, que antes precisava pagar 1,35% de juros mensalmente aos bancos, agora paga 1,80%. As informações são do economista Ayrton Fontes, da MSantos - empresa do varejo automotivo.
Por exemplo, um carro popular que custa R$ 28 mil, na antiga taxa e sem entrada, custaria, ao final de 60 parcelas, R$ 41.032,80. Com mais juros, o valor do mesmo veículo atinge R$ 46.018,80. Alta de R$ 4.986. "A taxa de juros ficou mais forte nessas áreas. No dia 30 de novembro era fácil o banco aprovar o crédito. Hoje isso não é assim."
Para se aproveitar de juros menos doloridos, o consumidor precisa arcar com 50% do valor total do carro na entrada - inviabilizando o negócio para classes baixas.
Mesmo assim, a Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos automotores) estima ano bom para o setor. A expectativa de vendas é de alta de 4,5%.
No curto prazo, no entanto, o presidente da entidade, Sérgio Reze, admite que o preço do crédito já "subiu alguma coisa". Mas para o representante, o fato de janeiro ter desempenhado bom volume de vendas é sinal de que as medidas econômicas ainda não interferem de modo significativo, apesar de o bolso do consumidor já pesar. "Ainda tem espuma (no setor), mas não tem intensidade", afirma Reze.
E ainda tem mais: o Banco Central irá elevar a Selic (taxa básica de juros). Analistas apontam que ela pode atingir 12,50% ao ano, contra os 11,25% atuais. A série de ações delineiam que 2011 poderá ser um ano menos favorável para o consumo do que no ano passado.
RENDA - A menor faixa de renda é a que mais sofre com as mudanças no crédito. Os mecanismos adotados pelo governo para arrefecer o consumo causaram impacto direto nesse público consumidor. /CWCW-30
Um desse dispositivos foi acionado em dezembro para inibir a inflação. Trata-se da elevação dos depósitos compulsórios aos bancos. Isso acarreta arrocho de dinheiro disponível entre as instituições financeiras, que têm menos dinheiro para oferecer aos consumidores. E, para não amargarem os prejuízos, elevaram o preço do crédito. Esse deve ser o tom de 2011.
Dantas exemplifica que é um processo em cadeia. E, no final das contas, irá eliminar o consumidor do mercado. "Quando há expectativa de aumento desses depósitos, as instituições financeiras praticam taxas de juros mais altas. Aí, o crédito encarece", ressalta.
Outro problema para faixas de renda menores é a falta de orientação financeira. Quando tudo são flores na hora de financiar - preços baixos no varejo, mais crédito atrativo - a classe não se planeja, segundo Dantas. "Houve concessão de crédito a pessoas que, às vezes, não fizeram nenhuma avaliação quanto aos pagamentos. Isso pode aumentar a inadimplência", analisa.
Fonte: Diário do Grande ABC
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