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sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A sinuca de bico da política de juros


Apesar da elevação recente da inflação, a desaceleração do nível de atividade revelada pelos indicadores do Produto Interno Bruto (PIB), relativos ao terceiro trimestre, foi importante para o Comitê de Política Monetária (Copom) se decidir, em 08 de dezembro, pela manutenção dos juros em 10,75%. A decisão do Copom, que manteve o Brasil na liderança do ranking mundial de juros reais, também levou em conta as medidas governamentais que entraram em vigor a partir de 06/12, que visam exatamente interferir no crédito e na liquidez da economia, esfriando um pouco o ritmo de consumo.

 As principais são: elevação do compulsório sobre depósitos à vista e a prazo, reduzindo os recursos que os bancos têm disponíveis para emprestar; encarecimento do crédito de longo prazo nas instituições bancárias para as pessoas físicas; aumento da parcela dos depósitos a prazo que deve ser recolhida pelos bancos ao BC de 15% para 20%´; aumento do adicional de compulsório para depósitos à vista e a prazo - de 8% 12% - e redução dos limites de dedução desse recolhimento para bancos menores. Segundo o governo, o conjunto de medidas anunciadas enxugará 61 bilhões em reais da economia, reduzindo a disponibilidade de crédito.

As referidas medidas, além de reduzir a oferta de crédito, devem causar impacto sobre o nível de atividade econômica, inflação, ritmo de crescimento da demanda. A estratégia do Copom é aguardar os efeitos das medidas sobre o crédito e a liquidez, para decidir se inicia ou não um novo ciclo de elevação da Selic. Segundo cálculos do Copom o conjunto das medidas terá efeito semelhante a uma elevação da taxa básica entre 0,5% e 1,5%. O momento é muito complicado para a elevação dos juros. A indústria enfrenta problemas no ritmo de produção, em decorrência do problema cambial e as medidas para conter o crédito e o consumo podem piorar ainda mais a situação da indústria. Por outro lado, o governo já anunciou corte de gastos para 2011, o que certamente afetará o nível de atividade e o próprio emprego.

Para combater uma inflação localizada, decorrente da pressão dos alimentos, o
governo pode tomar uma medida com sérias conseqüências no nível de atividade e no próprio ritmo de investimentos na economia. O risco de um novo ciclo de elevação de juros a partir de janeiro de 2011 é bastante concreto. Têm sido recorrentes as análises vindas do chamado “mercado” indicando a elevação da Selic como principal antídoto para o aumento da inflação, colocando o Copom numa espécie de sinuca de bico.


 
José Álvaro de Lima Cardoso Economista e supervisor técnico do DIEESE em Santa Catarina

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